sábado, 10 de outubro de 2015

MAIRINQUE - JOAQUINLÃO, DOCE LEMBRANÇA DE UM POVO

APRESENTAÇÃO

        Morando em Alumínio, tive de ir à Mairinque tratar de assunto relativo à minha dispensa do Serviço Militar, isto no início da década de 1960.
        Estava sentado em um banco na praça pública quando de repente se aproximou um senhor alto, forte, cabeça raspada, camisa xadrez com colarinho abotoado e a cinta lá pelo meio da barriga. Olhei-o surpreso e então ele me disse: “Me dá um dinheiro.”
        Uma pessoa, vendo meu espanto se aproximou e explicou-me que aquela pessoa tinha aquele costume por problemas mentais e que era muito bondosa, “não fazendo mal a ninguém”. Em seguida disse-me que o nome daquele homem era Joaquinlão.
        Vi-o novamente em algumas ocasiões que estive em Mairinque, porém quando fui de mudança para lá em 1980 Joaquinlão havia morrido no ano anterior. Depois fiquei conhecendo a história de vida desse personagem, o qual anos depois se tornou nome de rua, justamente no Jardim Cruzeiro, onde eu me estabeleci com minha família.
        Em outubro de 1984 a editora Momento (Empresa de Propaganda e Promoções de Mairinque) fez uma publicação que recebeu o nome de “Mairinque 94 anos – Edição Comemorativa” e nas páginas 15 e 16 estampou matéria versando sobre Joaquinlão, inclusive com uma foto dele.
        É esse belíssimo texto que transcrevemos em seguida, com pequenas adequações:
Em 1908, nasce em Santa Rita (hoje Alumínio) numa vila bem pequena, um menino forte, bonito, sadio e filho de mãe solteira: Joaquim de Oliveira – o “Joaquinlão”.
Cresceu, foi morar com a mãe junto de seu padrasto, carroceiro, onde passou a trabalhar, ajudando-o no sítio onde morava.
O Joaquinlão começou a existir, durante um dia de trabalho, onde foi agredido pelo seu padrasto com o cabo de um relho, em sua cabeça aos sete anos de idade. A partir daí, cresceu com a mente infantil. Ele tinha três irmãos: Valentina, Cássio e Luzia, que moram em Sorocaba. 
Quando o padrasto deixou sua mãe, Joaquinlão passou a morar só com ela, ainda em Santa Rita, onde fazia todo serviço de roça: apanhava mandioca, dava comida aos porcos, buscava milho, apanhava lenha.
Após a morte de sua mãe, foi morar com a tia que era casada com Iturino Alves, na época capelão de Santa Luzia e Santa Cruz, daí sua ligação com a igreja.
Sempre prestou serviços, devido à sua forte estrutura, e geralmente os serviços eram pesados. Chegava a transportar enormes feixes de lenha de uns 60 quilos ou mais.
Joaquinlão veio para Mairinque em 1937 com 29 anos e passou a morar num quartinho: do seu “Abel, pai da Glória do Bicharedo” – era assim que chamava.
Mas não deixou de dar suas caminhadas à pé até Alumínio. Chegava na casa de dona Brasilina e sempre pedia um pouco de comida, pão, café e perguntava de Elvira, a quem tinha muita afeição: “E Ervira, tai”? “Ela gosta de mim?”
Essa figura lendária tinha muitos hábitos, os quais ficaram bem marcados em toda a população. Devido a sua força e o prazer em ajudar as pessoas, não medias esforços para trabalhar. Ia sempre no Zaparolli descarregar farinha de trigo do caminhão, depois recebia em troca sanduíches de mortadela e queijo.
Gostava de buscar lenha no eucalipto do Horto e trazer para a Glória do Augusto, para a Helena do Joaquim e outros.
Joaquinlão teve muita ligação com D. Abade que o alimentava, vestia-o e dava uma atenção especial a ele, que participava de todos os eventos religiosos: ia à Missa com freqüência, rezava no “Domingo de Mês”, guardava enterros, rezava ladainhas.
Gostava muito da Dona Olga, do Padre Zezinho, do Padre Antonio e do Padre Bóris. Outros costumes muito conhecidos do Joaquinlão era o de ir ao bar da estação, tomar café com sanduíche, sendo na época dona do bar a dona Preciosa. Depois esperava o trem passar, pedia dinheiro e colocava embaixo do santo da igreja.
Conviveu também com a família de Dona Aidil, onde conta um de seus filhos (Paulo César), que até 1971 Joaquinlão nunca tinha andado de automóvel. E num domingo, depois do bailinho da SRM, muita chuva, Joaquinlão com os pés de reumatismo, foi convidado por Paulo a subir em seu fusca para abrigá-lo da chuva. Joaquim entrou de cabeça pela porta ficando entalado. Teve de sair em seguida para que Paulo o ensinasse e o ajudasse a entrar no carro.
Outros costumes de Joaquinlão: Falar uma série de nomes de cidades, repetindo-as, só não repetindo os nomes de Boston e de Chicago porque “eram nomes feios”. Só fumava esporadicamente charutos e quando era advertido ou recriminado ele dizia que o Dom Abade deixava ele fumar.
Certa ocasião ganhou uma dentadura feita e ofertada pelo Dr. Geraldo Amaral, a qual Joaquinlão lavava-a na fonte. O Sr. Mauro Pereira foi muito prestativo com Joaquinlão e chegou a fazer umas modificações no porão da sua oficina, na qual ele passou a morar (Oficina do Pernambuco). Para que Joaquim tivesse melhores acomodações, levantou o teto e colocou porta com fechadura para maior proteção. Sempre que o Sr. Mauro perguntava se ele havia guardado bem a chave ele respondia: ”A chave ta guardada no lenço.” 
Quando começaram a obras de construção do cinema, Joaquinlão passou a se abrigar naquele local, apesar de muitos insistirem para que ele saísse de lá e fosse para o asilo.
Aquela criança forte, dos pulinhos, da risada alta, foi perdendo sua vitalidade e aos 75 anos passou a morar no asilo e quando perguntavam se ele tinha medo de morrer, respondia: “Não; eu vou ficá pra semente”.

E foi o que aconteceu. Ficou mesmo para semente e mesmo depois de sua morte em l0-09-1979, ainda podemos ver aquela enorme figura correndo pelas ruas da cidade, gritando, cantando, rindo. Algumas de suas músicas: “O ralho do alfaiate- todo o dia a me cobrar – sou pobre, não tenho dinheiro – com que ralho eu vou pagar?/Fui na casa do pai da noiva para saber do meu noivado-o sapato era de vidro – a biqueira de olhado – foi descer uma ladeira – o salto virou de um lado/Ela tinha olho de vidro – também perna de pau – era seca não tinha bunda – parecia um bacalhau”/”Oh Carmem! oh Carmelita! – morena tão bonita – oh linda espanhola! Espanhola de Madri/ quando passa – pela rua – gritam o Valdomil – oh linda espanhola! – espanhola do Brasil”/”Bandeira vermelha – é sinal de guerra – barulho no céu – tristeza na terra/ Encontrei com o Lot – na beira da praia – com as armas na mão – para vencer a batalha/Eu vi, eu vi, eu vi – a morena no jardim – eu vi, eu vi, eu vi – a morena no jardim.    

ACERVO FOTOGRÁFICO (Fotos de algumas pessoas,  lugares e objetos citados na matéria).


Joaquim de Oliveira, o
 Joaquinlão



Alumínio, localidade onde ele nasceu



Carroça antiga



Relho -c abo de madeira e couro trançado -
usado pelos carroceiros



Padre José Yao
(Padre Zezinho)



Padre Antonio Liu



Luiz Zaparolli
(dono de padaria)



Dr. Geraldo Pinto Amaral
(Dentista)



Igreja Matriz de São José (Mairinque)



Bar da Estação (Mairinque)



Cinema Mk (onde Joaquim se acomodava
quando dos primeiros tempos da construção)



 Asilo em Mairinque - onde ele morou



Mapa de Mairinque, com indicação da 
Rua Joaquim de Oliveira



Notícia na Internet informando que a Secretaria Municipal de Educação
de Mairinque se mudou para a Rua Joaquim de Oliveira no Jardim Cruzeiro.



Edição Comemorativa Mairinque 
94 anos

CONCLUSÃO

         Este trabalho pode ser melhorado através de críticas construtivas e sugestões. É assim que tenho feito com todas as postagens publicadas em meu blog.
        Portanto, se você tiver qualquer contribuição a fazer, poderá entrar em contato comigo através do e-mail indicado no final desta publicação


SOBRE O AUTOR DA POSTAGEM


Wilson do Carmo Ribeiro é industriário aposentado, pedagogo e historiador diletante. 
É presbítero em exercício da Igreja Presbiteriana do Brasil, servindo atualmente na Igreja Presbiteriana Rocha Eterna de Sorocaba.
E-mail: prebwilson@hotmail.com

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