quinta-feira, 9 de abril de 2015

ALUMÍNIO: ONDE AS CASAS ERAM AMARELINHAS

APRESENTAÇÃO

         A Vila Industrial pertencente à Companhia Brasileira de Alumínio surgiu junto com o início das obras de construção da usina no início da década de 1940 na então localidade de Rodovalho.
         A finalidade das edificações era abrigar os trabalhadores que laboravam de forma acelerada, fazendo escavações, terraplenagens e outras obras, utilizando-se das máquinas e ferramentas disponíveis na época.
         As casas eram em geral pequenas, com aproximadamente sessenta metros quadrados, contendo dois dormitórios, sala, cozinha e banheiro. Garagem era impensável naqueles tempos que só os “ricos” possuiam automóveis.
         Com o passar dos anos e o início da produção do metal em 1955, casas maiores foram construídas e a vila passou a ter basicamente quatro áreas que agrupavam as residências dos trabalhadores: a dos profissionais, a dos encarregados, a dos chefes e técnicos  e a dos engenheiros.
         Com exeção desta última, em que as edificações tinham uma cor externa em tom cinza escuro, todas as demais tinham uma cor externa padrão: amarelinho claro. Por dentro as cores poderiam variar, de acordo com o gosto do usuário. Essa era uma das muitas coisas estabelecidas pela empresa e executada através da Diretoria Industrial, na pessoa do Engenheiro Antonio de Castro Figueirôa.
         Existia uma seção que fazia parte do Depto. de Obras que tinha como nome SEMACHIR (Seção de Manutenção Civil, Hidráulica e Instalações Elétricas Residenciais). Essa seção foi durante muito tempo chefiada pelo Sr. Mário Lourenço, um prático que estava entre os mais antigos empregados da fábrica.


A VILA PASSA POR UMA ATUALIZAÇÃO

         Aproximadamente na metade da década de 1970 muitos trabalhadores começaram a adquirir seus automóveis: Fuscas, Brasílias, Chevettes, Variants, etc. Aí então surgiu a necessidade de se construir as garagens mas a quase totalidade das casas eram geminadas e não havia espaço para isso.
         Naquelas que havia espaço as garagens foram construídas. Outra solução foi a construção de garagens coletivas em determinadas áreas. Outra coisa que ocorrera algum tempo antes fora a construção de um terceiro dormitório. Aliás, é bom que se diga que muitas delas foram edificadas originalmente com um dormitório a mais.
         A empresa cobrava um aluguel simbólico que servia apenas para fazer a manutenção nos imóveis. Aliás, nenhum morador podia fazer qualquer reparo na moradia. Tinha de avisar a seção que cuidava dos imóveis e ela mandava os profissionais para realizar o serviço.
         “Ganhar” uma casa na CBA significava sinal de prestígio e, como nos primeiros tempos só existia a Vila Paulo Dias, que pertencia à pessoa de mesmo nome, mudar-se para a Vila Industrial era uma realização pessoal para o chefe de família e sua prole. Com o passar do tempo esses moradores, pleiteavam uma casa maior ou melhor localizada e a Diretoria deliberava sobre o assunto, tendo um funcionário para coordenar tudo o que se relacionava com vila.

ALGUMAS EXPERIÊNCIAS VIVIDAS

         Em 1972 quando era Auxiliar de Encarregado na Seção Pessoal fui designado para ser o Coordenador das casas da vila, o que fiz até o final de 1973. Embora fosse subordinado ao chefe da Seção Pessoal, pela natureza de minha função mantinha contato quase diário com o diretor da empresa. Isso foi muito bom para o prosseguimento de minha carreira profissional na indústria.
         Por recomendação do diretor, Dr. Figueirôa, eu ia até a casa dele e o aguardava para descermos juntos na caminhonete que o levava para dentro da fábrica. “É para aproveitar o tempo” dizia ele. Na frente de sua casa muitas pessoas eram atendidas, entre as quais pais ou mães pedindo emprego ou readmissão para os filhos, conceção de casa na vila e outras coisas mais. Ali também ele assinava mensalmente os boletins dos estudantes candidatos à admissão na fábrica, quase em sua totalidade filhos de empregados.
         Como tinha formação em Engenharia Civil e de Minas e Metalurgia, o diretor tinha um xodó pelas obras em andamento e eu acabava acompanhando-o naquelas enormes edificações até chegar ao escritório dele no quarto andar do prédio da Administração. Alí, entre telefonemas e ordens aos seus auxiliares ele despachava os memorandos e resolvia os assuntos pendentes que eu lhe apresentava.

UM CASO PARA NÃO SER ESQUECIDO

         Nós, funcionários da Administração tínhamos uma hora de almoço. Saíamos do nosso trabalho e íamos até nossas casas na vila para a refeição. Isso demandava vinte minutos de ida e volta, sobrando portanto quarenta minutos para a refeição, fazer um afago na esposa e nos filhos e tentar ver alguma coisa na televisão.
         No meu caso específico no período em que coordenei as casas da Vila Industrial ocorria de pessoas, quase sempre senhoras, irem até o portão de minha casa, na chegada ou na minha volta ao escritório. Geralmente saía em cima da hora, ou seja, dez minutos para “ir morro acima” da Rua Álvaro de Menezes até a Seção Pessoal. Não podia atrasar sequer um minuto para marcar o cartão de ponto, caso contrário tinha de prolongar o período de trabalho por mais meia hora, o que era impensável pois, retornando para casa após o expediente, tinha de banhar-me, jantar e ir à faculdade em Sorocaba, distante vinte e cinco quilômetros.
         Certo dia, faltavam os tais dez minutos e saí porta afora para retornar ao  batente após o almoço e lá vinha uma senhora que tinha uma casa autorizada para mudar e ela queria tratar sobre detalhes que diziam respeito à minha participação no processo. Com gestos, tentei fazê-la entender que não poderia falar com ela ali, senão “rodava” para marcar meu cartão de ponto.
         O que aconteceu a partir daí foi uma verdadeira tragicomédia: eu quase correndo para não perder a hora e ela andando o mais depressa que podia e tentando fazer com que eu parasse para ela explicar-me o que desejava.
Cheguei ao escritório, marquei meu cartão e, resfolegante, esperei por ela ali mesmo na entrada do prédio. A pobre também estava cansada, lógico. Aí, sem qualquer discussão ela disse o que desejava e eu dei-lhe as explicações, encerrando o assunto. Eu fui para minha escrivaninha e ela voltou à sua casa.

UMA VILA COLORIDA – UMA PARTE DEMOLIDA

         Não sei dizer quando as cores externas das casas da Vila Industrial da CBA foram liberadas mas o fato é que, vendo-as hoje, percebemos que aquela vila monocromática não existe mais. Em parte não existe por causa do visual multicolorido e em parte porque são as casas que ruíram – foram demolidas para dar lugar a estacionamentos de carretas e automóveis ou para um processo de restauração ambiental.
         Uma coisa é certa: Eu, como todos os que moraram na Vila Industrial em Alumínio guardamos doces lembranças, como se expressa sempre um dos muitos amigos que temos nas redes sociais: “Tempo bom que não volta mais.”


ACERVO FOTOGRÁFICO
(Casas da Vila Industrial: fotos de Carlos Alberto Gonçalves)


Trevo de entrada para Alumínio


Vista aérea da Vila Industrial da CBA

 
Engº Antonio de Castro Figueirôa
Diretor Industrial da CBA (1955-1985)


Mário Lourenço
Chefe do SEMACHIR



Setor onde moravam engenheiros


Moradia de Chefias e Técnicos


Moradia de Encarregados e outros
 profissionais


Moradia de profissionais


As mesmas casas com cores padronizadas nas
décadas anteriores e coloridas atualmente



 Rua Brandt de Carvalho



Rua Moraes do Rego


Estacionamentos onde existiam casas


Restauração ambiental


SOBRE O AUTOR


Wilson do Carmo Ribeiro é industriário aposentado, pedagogo e presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil. Trabalhou na CBA 31 anos, morou na Vila Industrial 15 e coordenou-a por 2 anos.

4 comentários:

  1. Obrigado Pr Marcos Godinho. Seu pai Marcilio Godinho teve importante participação nessa História da Vila Industrial como Coordenador por muitos anos.

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  2. Oi Wilson,

    Muito bacana o seu blog! Estou encontrando várias informações importantes para minha pesquisa.
    Estou interessada em saber mais sobre as casas da Vila Industrial. Você tem mais documentos e fotos delas? Ou pode me contar um pouco mais sobre a construcão das casas?

    Atenciosamente,
    Ana Maria A. B. Pereira de Magalhães

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  3. Boa noite Ana Maria: Obrigado pelo comentário. Devo informa-la que não tenho nenhum documento a respeito de meus trabalhos sobre a cidade de Alumínio. Tudo o que tenho escrito é por causa da vivência que tive com a localidade a partir de fins de 1958, morando 22 anos lá e trabalhando 31 anos na CBA. Nunca perdi contato com a comunidade, tanto com as pessoas que se mudaram de lá como as que permaneceram. Uma das postagens que contém muitas fotos é:http://wilson-ribeiro.blogspot.com.br/2013/08/cidade-de-aluminio-um-resgate-da-memoria.html
    Se vc. quiser outras informações que eu possa darr, use meu e-mail: prebwilson@hotmail.com

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