quinta-feira, 15 de março de 2012

CLAUDINO MARRA E DONA ANTONIA - VIDA MISSIONÁRIA

APRESENTAÇÃO



Conheci o Sr. Claudino Batista Marra e sua esposa dona Antônia Bueno Marra em junho de 1964 na cidade de Sorocaba, SP. Na verdade fui à presença deles para pedir autorização para namorar a jovem Claudineide, filha do casal, a qual eu conhecera alguns dias antes.     
        Recebida a autorização, passei a freqüentar a casa deles aos domingos.    Dona Antonia estava sempre presente, porém sr. Claudino às vezes estava viajando a serviço, que incluía a pregação da Palavra.
No dia 15-05-1965 na Igreja Presbiteriana Filadélfia de Sorocaba senhor Claudino entregou-me sua filha no altar e os Reverendos Abimael de Campos Vieira e Moisés Martins de Aguiar rogaram as bênçãos de DEUS ao nosso casamento.
         Convivi pouco tempo com meu sogro: apenas quatro anos, uma vez que em 05-05-1968 aprouve ao Senhor chamá-lo aos páramos celestiais. Sofria do mal de Chagas, que afetou seu sistema digestivo. Foi sepultado no cemitério de Vila Formosa na capital paulista, mas d. Antonia fez posteriormente seu translado para Astorga, acompanhada pelo filho mais velho o querido Marra Junior, norte do Paraná, onde estavam sepultados os pais dela, dos quais falaremos oportunamente.
         Já com dona Antonia meu convívio foi relativamente longo. Sempre nos demos muito bem e ela nos visitava freqüentemente. Em 1973 ela achou por bem ir residir em Astorga,tendo em vista que estava só agora em São Paulo e duas de suas irmãs residiam ali, o que fez até 1995 quando, debilitada pelo peso da idade e enferma, eu e minha esposa trouxemo-la para nossa casa em Mairinque, SP. Após tratamento com geriatra em Sorocaba ela foi para a casa da filha Claudionir e seu esposo Reverendo Nicodemo Lázaro Boldori em Volta Redonda. RJ.D. Antonia faleceu em 03-07-2001, sendo sepultada em Barra Mansa, RJ. Em 2007 coube-nos (à filha Claudineide e eu) transladá-la para Astorga. Acompanhou-nos nesta viagem o Presb. Carlos Amendoeira e sua esposa dona Maria Luiza. Assim d. Antonia repousa  junto dos pais e do esposo onde aguarda a ressurreição dos justos. Como era submissa, ficou como Sara junto à Abraão.

A CONVERSÃO DO VÔ SEBASTIÃO

       Em suas anotações d. Claudineide registra como aconteceu a conversão do Sr. Sebastião Bueno de Freitas no sítio nos arredores de Borborema:
A mamãe, como as moças de sua época, aprendeu também com a mãe a costurar, cozinhar, cuidar da casa, das hortas, dos pequenos animais, lavar roupas, ordenhar as vacas, ser submissa mesmo que contra a vontade, ser religiosa e isso graças ao bom Deus foi muito à vontade e com amor e temor, bom pra ela e para todos nós. Ela contava que quando adolescente ajudava o vovô Sebastião nas rezas e benzimentos, rezava o terço; a família hospedava o padre quando vinha para batizar os catequizados; era muita festa nas rezas e depois muita dança. Um dia passou por lá um colpoltor (vendedor de Bíblias) conversou bastante com o vovô; ele com a bíblia em mãos (o que era proibido, até pecado) não foi mais o mesmo homem. Quando o padre veio, recebeu a mesma hospedagem e com ela muitas perguntas; orientou-o para que deixasse isso (a Bíblia) de lado porque só traria confusão em sua cabeça e vida. Na outra vez que ele veio foi a mesma coisa, e aquele padre teve a certeza que perdera seu ajudante e então recomendou ao vovô Sebastião que se ele estava gostando da bíblia que a lesse e seguisse. Ele já estava fazendo isso e é impressionante como a Palavra de Deus é eficaz. Alguém que tinha métodos de vida bem rudes, enérgicos, duros mesmo, não obrigou ninguém ir para o culto com ele. A vó Graciana não gostou nada da história e dava uma ligeira sabotada atrasando o almoço de domingo. Ouvi de várias tias que ele não dizia nada e ia sem o almoço.
1959 - Tia Tereza esteve em nossa casa em tratamento e eu ouvindo a conversa delas “lembranças”, fiquei sabendo que a mesma e seu esposo tio Luis substituíram o vovô nas rezas e benzimentos, e como a mamãe já era acostumada ia com eles do mesmo jeito: rezas e bailes. Ela disse que aos 16 anos num baile depois da reza, dançando (palavras dela) percebeu que o lance da dança ia além do prazer de girar e valsar e saiu decidida. No dia seguinte que era domingo foi para a Escola Dominical e culto com o vovô, e para a Glória de Deus, foi definitivamente. Um a um os filhos todos foram e a vó Graciana também. O amor e temor devotado às imagens transportaram-se para o Evangelho de Jesus e a hospitalidade recebia agora jovens pregadores e pastores entre eles Reverendo Gutenberg de Campos que depois casou a mamãe e o papai.

VÔ SEBASTIÃO E VÓ GRACIANA NO SERTÃO

       São os pais de Antonia Bueno Marra. É a neta Claudineide quem discorre a respeito do casal e parte da vida dele: “... fiquei sabendo que o vovô e a vovó foram para o meio do sertão verde, mato fechado e sua primeira moradia não era nem de pau-a-pique. Ouvi que era apenas de madeira, varas colocadas umas ao lado das outras, feito antes um rego para fixá-las no chão e depois juntadas ou amarradas com cipó.
         “A casinha da vovó era amarradinha com cipó, o café tava demorando, com certeza não tinha pó!”. Não tinha pó de café porque ainda precisava derrubar o mato, limpar tudo para plantar o café que levava sete anos para produzir. Hoje quando o vapor do café e seu cheiro recendem da cafeteira na cozinha eu penso: “Obrigada meu Deus, quanta diferença de um século!”.
O teto da casinha, nunca fiquei sabendo como era, mas as paredes eu vi a mamãe fazendo a réplica, agora em cercas no nossa terreno no Simus, já era muita diferença, porque era para os animais.
Na última vez que visitamos a tia Maria Júlia no sítio em Santa Fé, Wilson, eu e nossas crianças em janeiro de 1985. A mamãe estava conosco. A prima Olgalina, que mora em Maringá, e Vicente, seu irmão, ambos filhos de tia Maria Júlia também estavam, e ouvi mais uma vez detalhes da vida dos avós inclusive o caso de que algumas vezes os jovens do final do século 19 ouviam de noite o “miado” das onças.
Quanto aquela “dupla dinâmica” trabalhou não dá para imaginar. Suas expectativas, sonhos, tristezas, medos, ansiedades e também graças à Deus alegrias, realizações, satisfações porque o fato é que nossa mamãe Antonia Bueno Marra, já conheceu um sítio com pomar, gado bovino, porcos, cavalos, muito frango, plantação de tudo que fosse comum, usual e prioridade, vários empregados, parentes morando juntos; a tia Anália, irmã da vó Graciana, tia Idalina, irmã do vovô e a vó Joana, mãe da vó. Como já mencionei anteriormente, a mamãe dizia que só compravam o sal, e o vovô não admitia comida fraca nem regulada (pouca) para todos com certeza também os camaradas. Quando ele sentia que era o caso, parava todos e tudo e iam escolher os animais de porte, preparar as carnes para o consumo.[1] Mamãe e as tias contavam que as carnes dos porcos eram preparadas fritas, defumadas transformadas em lingüiça, banha para temperar as outras comidas, toucinho e guardadas em latas imersas na banha não estragavam. As aves era seu preparo por conta das mulheres moças, preparo tão fácil. As duas filhas Claudionor e Claudionir foram nascer no sitio aos cuidados da vó Graciana.
  
UM HOMEM IDEALISTA

       Claudino Batista Marra nasceu aos 08-08-1906 em Itápolis, cidade situada na área central do Estado de São Paulo. Foi um dos três filhos do casal José Maria Almeida Leite e Ermelinda Batista Marra. O nome de seu irmão era Laudelino Batista Teixeira e da irmã Sebastiana Ponciana de Carvalho. Antonia nasceu aos 08-08-1916 numa cidade não muito distante de Itápolis – Borborema, na área rural onde os pais Sebastião Bueno de Freitas e d. Graciana Maria Oliveira laboravam. A família era numerosa, pois o casal teve oito filhos: Maria Julia, Tereza, Aurélio, Guilherme, Benedito, Margarida, Antonia e Lázara.

      Claudino e Antonia foram apresentados pelo irmão dele, Laudelino, conhecido como Lau, o qual já estivera no sítio algumas vezes com caravana de evangélicos. Ela estava exercendo seus dotes domésticos quando chegou o moço da cidade, que por certo impressionou a jovem dez anos mais nova do que ele. Claudino tinha a formação de Guarda Livros, o que equivaleria a um Contabilista nos nossos dias e trabalhava também como Professor.

         Casaram-se em 21-07-1934 e o oficiante foi o Reverendo Gutemberg de Campos. Claudino treinou e capacitou a esposa Antonia e ela passou a alfabetizar crianças. Em 10-07-1941 nasceu Claudino Batista Marra Júnior em Valparaiso, SP e em 13-10-1945 nasceu Claudineide em Andradina quando os pais residiam na pequena cidade de Alfredo de Castilho, próximo dalí.
Como afirmei no início, Claudino Marra era um idealista. Era acima de tudo, homem de ação. Por causa disso, ainda solteiro e morando em Rio Claro, foi juntamente com seu irmão Laudelino  para frente de batalha na Revolução    Constitucionalista de 1932.
 Não bastasse a defesa do ideal que acalentava, sem saber o soldado Claudino iria contribuir para que nos últimos anos de vida, a esposa Antonia viesse a receber uma pensão paga pelo Governo do Estado de São Paulo, devida aos ex- combatentes.
Telegrafista, Claudino trabalhou na Estrada de Ferro Araraquarense e na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Em função disso o casal residiu por algum tempo em condições menos favoráveis, mas, como já foi dito, as coisas haviam melhorado com o passar do tempo e em Castilho o casal possuía casa com pequeno escritório,  uma sala de aula e algumas casinhas de aluguel. 
Em Araraquara Claudino trabalhou em serviços de coletoria.

RUMO ÀS ALTEROSAS          
      Claudino Marra acalentava um sonho: trabalhar na obra missionária na Igreja Presbiteriana do Brasil. Era calvinista convicto. Não lhe satisfazia o fato de pregar nas igrejas metodistas, denominação na qual chegou a ser provisionado. Era uma espécie de pastor leigo. (Não escolheu as planícies verdejantes, mas visualizou as Alterosas inóspitas.) Seria imitador de Calebe?
Entre as amizades desenvolvidas com pastores presbiterianos em Itápolis, Rio Claro e em Campinas incluía-se o Reverendo José Carlos Nogueira, que fora pastor do casal e era uma espécie de padrinho de Claudino... Foi esse venerando pastor que convidou Claudino Marra para trabalhar na Junta de Missões Nacionais.

         Em abril de 1946 Claudino e sua família foram de mudança para a Zona da Mata em Minas Gerais. Morando inicialmente em Sabinópolis a família mudou posteriormente para Guanhães. O saudoso Reverendo Júlio Andrade Ferreira em sua obra História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 2 – (Casa Editora Presbiteriana, 2ª edição 1992), escreve à página 409: “foi o início de uma preciosa sementeira de fé. Como acompanhar, porém, todas as lutas e todas as vitórias de todos os missionários? Como saber das resistências em Guanhães? Em Virginópolis? Em Peçanha? E não são os lugares fechados acaso necessitados da cruz?” 

         Na obra já citada do Reverendo Júlio Andrade Ferreira, mesmo volume, pág. 406 está o registro: Em 02-11-1939 a Junta de Missões Nacionais foi organizada na Igreja Presbiteriana Unida, ainda como Mista. Sim, porque era tríplice: Igreja Presbiteriana do Brasil, Missão de New York e de Nashville. O objetivo era a evangelização do interior brasileiro.
No ano seguinte a Junta de Missões Nacionais foi oficializada e o Reverendo José Carlos Nogueira foi seu primeiro Secretário Executivo. Ele que fora pastor em Araraquara e em Rio Claro, era conhecido do Sr. Claudino Batista Marra e de sua esposa, dona Antonia Bueno Marra.
Foi por aí que o sonho do ex combatente e ex telegrafista, agora estabelecido como Guarda-Livros e Professor começou a se realizar. Assim, em abril de 1946 a família Marra foi para Guanhães na Zona da Mata em Minas Gerais. (Mat.19.27:”...eis que nós deixamos tudo e te seguimos...”

A VIDA EM GUANHÃES

      Embora tivesse apenas seis meses de idade e  seis anos e meio quando retornou de Minas, Claudineide sempre foi muito atenta a tudo o que se passava ao seu redor e era observadora. Os fatos ocorridos foram mentalizados durante o desenrolar de sua existência e passadas para o papel entre 2005 e 2007. Para descrever a vida da família Marra em Guanhães entre 1946 e 1952 transcreveremos partes desses escritos.
“ Sei que o papai tinha sob sua responsabilidade abrir pontos de pregação, evangelizar sem cessar, dar assistência a quem quer que fosse. Os reverendos Ludgero Morais e Boanerges Ribeiro, talvez outros que eu não lembro, faziam depois todo percurso realizando os atos pastorais, efetivando as congregações. Naquelas ocasiões todas as vezes passavam pela nossa casa, e eu me lembro que achava tudo muito importante.
            Ouvi o papai outra vez conversando com a mamãe e contando que havia passado por uma trilha beirando a serra. Era um caminho novo para ele e que encurtaria muito o percurso, mas jamais esquecerei que ele disse que (estou emocionada) sentiu medo mesmo porque a trilha era tão estreita e pedregosa que um resvalo da mula ambos rolariam pela ribanceira. E o papai chegou a ver ali restos de algum fato certamente ocorrido; (no som daqui do quarto está tocando “Tu és Fiel”, Glória a Deus) ao perceberem minha presença ouvi o papai dizer: “Vai brincar Neidoleca”. Ainda ouvi que ele disse para a mamãe que nunca mais passaria por lá porque não se pode tentar a Deus. Quando estudando Literatura li no poema:
                       
“A serra do rola moça
                          não tinha esse nome não,
                          .................................., lembrei-me desse fato que nos leva a Hebreus 11. Heróis da fé.
           
            Em uma véspera de Natal como sempre fazia, o papai colocava discos para tocar em uma vitrola de corda. O som era sofrível porque a medida que a corda ia acabando a rotação diminuía, era dado corda de novo com uma manivelinha e a rotação aumentava. Havia uma caixinha com agulhas pois a cada pequeno período era preciso trocar a agulha senão de sofrível passaria a horroroso o som. Bem, o papai perguntou-me nessa ocasião que hino eu gostaria que colocasse e eu respondi: o hino do major. – Hino do major, não tem hino do major. - Tem papai. – Como é ele? – Maajor, maajor, maajor, maajor! O papai começou a rir tanto, tanto e eu não sabia por quê. É que o hino era: “Naatal, natal, natal, natal”  São gratas lembranças pessoais.
            Lembro-me de conversas em casa a respeito de um senhor a quem chamavam de Nhô Juca. Em sua propriedade (fazenda ou sítio) haviam iniciado uma congregação Presbiteriana e ele insistia com o papai para que levasse a mamãe conosco até lá. Lá fomos nós. Mas não todos.
O papai em um cavalo com o Marra Júnior na garupa, a mamãe comigo na frente da sela  e a bagagem era uma boa carga para uma mula. Os pequenos ficaram com alguém de muita confiança, a estadia foi bem pequena, mas o que não sai da frente é a lembrança da descida que chegava ao rio com a casa do outro lado. A descida era tão forte que a mamãe desceu do cavalo, levou-me no colo e puxava o cavalo pela rédea; eu não era tão pequena e agora penso que talvez tenha sido uma visita de despedida. Muitos cenários, costumes e falas que estavam lá no fundo vieram à tona ao assistir a minissérie JK.
            Em Guanhães morávamos em uma casa assobradada (o mesmo jeito da nossa casa em Mairinque onde DEUS nos usou para iniciarmos outra igreja) a parte alta dava para a rua e embaixo havia um salão onde se realizava o trabalho de evangelização. Se o papai estivesse em casa ele o realizava e se estivesse no campo missionário era mamãe que tomava a frente da mesma maneira. (A pregadora ensinou e pregou até 1995, nessa época na rádio, bem longe de Guanhães
Da sacada da sala a gente via tudo que se passava na rua. Havia um senhor que morava ao lado e todo dia ele me cumprimentava: - Bom dia senhorita! Parece-me que era “Seu” Benedito e a esposa Odila. Vez por outra passava uma tropa de muares e ao ouvir de longe o cincerro da madrinha da tropa a gente ficava esperando para vê-los passar. Depois que já estava maiorzinha saia para a rua e brincava com as meninas do meu tamanho: “Ciranda, cirandinha”, “Passa, passa treze”, “Balança caixão”, “Terezinha de Jesus”, “Boca de forno”. O Claudino também descia e por sua vez brincava com algum menino. A Claudionir dizia que não gostava e preferia ficar lá em cima sentada olhando. Havia naquela mesma rua uma serraria,e a mais velha para passear tinha que levar a Neide a tiracolo e foi lá que ouvi pela primeira vez o Luiz Gonzaga cantando “Asa branca”. Achei muito bonito. Ouvi também “Beijinho doce” (Cascatinha e Inhana).
            Havia o armazém do Leôncio e quase todas as vezes que a gente ia lá com alguém[2] para buscar algo, estava tocando a música, Cavalo Preto chamado Ventania com Tonico e Tinoco A caixinha de mate leão era de madeira.
            Lembro-me de ver o papai saindo cedo no meio da neblina para ir à praça colocar discos na sua vitrolinha, era Semana Santa e os hinos eram sobre a Paixão de Cristo.
            Chupei minha chupeta até seis anos daí em diante durante um tempo só chupava a tal de manhã, (desde a noite) até o mingau ficar pronto. “Era mingau de maizena com leite puríssimo.”
      
Em Guanhães a casa da família Marra localizava-se à Rua Getulio de Carvalho nº 506-A. No nº 506 funcionava o salão de cultos, havendo um terreno vazio entre as duas edificações.

A FAMÍLIA MARRA EM SOROCABA

      Passados seis anos em Guanhães, já não era mais possível à família Marra continuar morando naquela pequena cidade da Zona da Mata mineira. Três filhos nasceram em Guanhães: Claudio Antonio, Claudirceu e Eliézer. Os mais velhos precisavam estudar e na cidade só havia o antigo curso primário.
Assim, A JMN e seu missionário se entenderam e a família Marra veio de mudança para Sorocaba, cidade distante cem quilômetros da capital paulista e detentora de muitas indústrias têxteis a ponto de ser chamada de “Manchester Paulista”.
Deixemos que d. Claudineide fale como as coisas se desenrolaram: “Terras de cerrado, na região que ganha esse nome em Sorocaba, no Jardim Simus onde crescemos cercados de eucaliptos até onde a vista (do papai e da mamãe) alcançava, porque éramos pequenos. Ali chegamos em Abril de 1952. A Claudionor estava fazendo 17 anos, a Claudionir 13, digo fazendo, porque elas são aniversariantes do dia 24 de abril, o Claudino ia fazer 11 anos no dia 10 de julho, eu, Claudineide 7 anos no dia 13 de outubro, o Cláudio 5 anos no dia 4 de junho, o Claudirceu 4 anos no dia 12 de agosto e o Eliézer 3 anos no dia 7 de novembro. O papai completava naquele ano 46 e a mamãe 36. Faziam aniversário juntos no dia 8 de agosto. Houve ano que era Dia dos Pais e aniversário dos dois no mesmo dia... Papai viveu só mais 16 anos e lembro-me de uma estrofe que veio num cartão que era de um Dia dos Pais:
“Eras meu pai qual formiga trabalhavas o ano inteiro
para suster nossas vidas e encher nosso celeiro.
À medida que vivemos como quem de um sonho sai
Pela vida afora vemos, quanta falta faz o papai.”

Veio também de Guanhães conosco o Marcelo que ia fazer  12 anos no dia 28 de agosto...
           
...O papai e a mamãe conforme João escreveu no Apocalipse porque Jesus declarou, moram na cidade Celestial cercados de tudo maravilhoso que a nossa imaginação não alcança, e que contrasta totalmente com essa rua em que viemos morar. Sem valetas causadas pelas enxurradas, sem falta de luz, porque o próprio Jesus é o Sol da Justiça, sem falta de água porque Ele é a Fonte da Água Viva e a praça daquela cidade é de ouro puríssimo: “Jamais se contou ao mortal.”[3]
            As terras de cerrado no Jardim Simus já sofriam a descaracterização, tendo em vista que uma indústria em Sorocaba fazia o plantio de eucaliptos para uso da lenha nos fornos. As plantas no seu habitat natural são tão persistentes que quando ocorria o corte, as naturais brotavam e assim tivemos contato com as guabirobas, pitangas do campo, ariticum, barbatimão, muita barba de bode, em cujas moitas as galinhas gostavam de fazer ninhos e às vezes saiam de lá com ninhadas lindas, sapé, arranha-gato, coqueiros de indaiá tinham uma cabeça com palmito que era o máximo, jalapa, japecanga, cambará. Na barroca que começava perto da nossa casa, descia para leste, me lembro bem das imbaúbas e da cantoria dos sapos. Eu prestava muita atenção nas coisas que a mamãe contava os nomes, mas mesmo assim muitas eu não lembro. Gostava do barbatimão e como era uma menina sozinha no meio dos moleques, adotei aquela árvore como amiga e confidente e suas folhas redondas me pareciam moedas, conversei muito com ela, digo conversei porque tinha certeza de ouví-la. [4]. “Cresci e a pobre da minha amiga ficou lá no lugar e no passado”.

NA ASSOCIAÇÃO EVANGÉLICA BENEFICENTE

      Claudino Marra não deixou de trabalhar numa obra relacionada com o Reino de Deus. Sua função agora era ir às igrejas evangélicas e pregar a Palavra. Depois da pregação ele discorria sobre a Associação Evangélica Beneficente e a obra que a entidade realizava. Em cada igreja estabelecia um agente que ficava incumbido de recrutar colaboradores, receber mensalmente deles e repassá-los ao Sr. Claudino, eu fui um deles, que por sua vez fazia a prestação de contas com a diretoria da AEB em São Paulo.
Em Sorocaba já funcionava o Hospital Evangélico, tendo como entidade mantenedora a AEB. Hoje é um dos maiores e mais modernos hospitais da cidade e continua  vinculado à Associação Evangélica Beneficente.
      Os filhos mais velhos constituíram seus lares. Cláudio Antonio, agora com dezessete anos e muita vontade de estudar fora para São Paulo, onde estava estudando e trabalhando. Assim, em 1967 Claudino Marra e d. Antonia mais os filhos menores Claudirceu e Eliézer se mudaram para a capital paulista e alugaram uma casa na Vila Prudente, aonde a família, incluindo o Claudio Antonio Marra passou a residir.
    A doença manifestou-se no ano seguinte após um infarto no inicio do mesmo ano,e em maio de 1968 o ex combatente e homem a serviço do reino de Deus deixou-nos, indo morar com o Pai que ele tanto amou e procurou servir.
   Algum tempo depois d Antonia, sentindo-se sozinha em São Paulo,  resolveu ir de mudança para Astorga onde ainda residiam duas irmãs dela e lá  permaneceu até 1995, sempre evangelizando e testemunhando de Jesus. Ela, que lera a Bíblia inteira cinqüenta e seis vezes recebendo por isso uma homenagem da Sociedade Bíblica do Brasil, pregava em seus últimos tempos através de um programa evangélico que era transmitido por uma emissora da cidade.

OS HERDEIROS DE CLAUDINO E d. ANTONIA
      A primogênita do casal, a Claudionor foi casada com Orlando de Oliveira, que faleceu em 1976. Ela é pedagoga aposentada e o casal teve os filhos Nali e Levi. Ela é professora aposentada e ele delegado de polícia.

Claudionir foi casada com o Reverendo Nicodemo Lázaro Boldori, pastor a muitos anos da 3ª Igreja Presbiteriana Independente de Volta Redonda, RJ. Ela faleceu em 2008. O casal teve os filhos Marcos e Marilisa. Ele é pós graduado em Administração, trabalhando na área de segurança em informática e ela é Psicóloga.

    Claudino Batista Marra Júnior é autodidata e atua como tradutor de inglês/português, tendo traduzido diversas publicações evangélicas inclusive para  Editora Cultura Cristã .É casado com Marlene Ribas Marra e são pais de Sômer e Adriane. Ele concursado na SANEPAR (companhia que cuida do abastecimento de água no Paraná) e ela é comerciante.
Marra Júnior, como ele gosta de ser chamado é tradutor voluntário já há vários anos para o site de teologia Calvinista www.monergismo.com. Seus E-mails: claudino@monergismo.com, marrajunior@ibest.com.br e marrajunior1@hotmail.com,

Claudineide é professora aposentada, casada com o Presbítero Emérito Wilson do Carmo Ribeiro. São filhos deles: Wilson Cláudio (micro-empresário), Eliane (psicóloga), Flávia (assistente social) e Artur (publicitário).

Claudio Antonio  é  Doutor em Ministério (D.Min) pelo Reformed Theological Seminary, em Jackson, Mississipi, EUA. Bacharel em Teologia e em Comunicação Social,  é professor de Homilética no Seminário Presbiteriano José Manoel da Conceição, SP, Editor da Editora Cultura Cristã e autor do livro A Igreja Discipuladora, além de ensaios e artigos na revista Servos Ordenados.
Foi casado com d. Arlinda Madalena Torres Marra, falecida em 2008, e o casal teve os filhos Claudio Jr. e Iesarella. Ele é professor de Educação Física e ela tem formação em designer gráfico. Cláudio casou-se em segundas núpcias  com a professora Sandra Salum, mestra em Língua e Literatura Portuguesa e Inglesa.


Claudirceu é administrador de empresas e de seu casamento com Júlia nasceram os filhos Viviane (falecida em 2011), Yara e Anderson Heber. Ambos desenvolvem atividades comerciais.

Eliézer é pastor presbiteriano, tendo atuado nos últimos anos no Estado do Rio de Janeiro. A esposa Sônia é professora e a filha Marielli administradora de empresas.

Entre os bisnetos, profissionais de diferentes áreas: Rodrigo André: Médico Oftalmologista; Nicole: Pedagoga e Cassiane:  Repórter de Televisão,

CONCLUSÃO


      Esta narrativa mostra de alguma forma a trajetória de um casal que teve origens humildes, que batalhou muito na vida, serviu ao Senhor com inteireza de coração e criou os filhos no temor do Senhor. Não deixou herdades nem dinheiro, porém a eles podemos aplicar o que diz Apocalipse 14.13: Então ouvi uma voz do céu, dizendo: Escreve: Bem aventurados os mortos que desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham. 

ACERVO DE FOTOS
      

Claudino: O Guarda- livros


Antônia - A moça que dedicou sua
vida à família à evangelização


Claudino e Antonia com as primeiras filhas:
Maria, que faleceu na infância e Claudionor



Com Claudionor, Claudionir e Claudino


Encontro de presbiterianos em Rio Claro. 
Na foto fornecida pela irmã Clélia Temple de Almeida, 
viúva do Rev. João de Almeida ela assinala: nº 1 - Rev. José Carlos Nogueira; 
2 - Rev. Naftali Vieira; 3 - Rev. Modesto Carvalhosa; 
4 - Rev. Armando Amorim. Claudino Marra está indicado com a seta.




Encontro de Metodistas em Bauru. Claudino Marra, 
que serviu a essa igreja está indicado pela seta.


Rev. José Carlos Nogueira, 1º Presidente da Junta de 
Missões Nacionais e que levou Claudino Marra para 
trabalhar no Campo Missionário de Guanhães, 
MG em 1946. Ele foi Presidente do Supremo
Concilio da Igreja Presbiteriana do Brasil




O Missionário Claudino Marra em
ação no seu campo de trabalho na
região de Guanhães, MG 


Tiro de Guerra em Guanhães (foto feita da
janela da casa da família Marra (final dos anos 40)



Corpo Clínico e Administrativo da Santa Casa
de Misericórdia de Guanhães (nesse hospital
nasceu Eliézer, o caçula da família Marra em 1949) 
(foto Internet) 



Casa em que a Família Marra veio a residir no Jardim Simus em Sorocaba
após o retorno de Guanhães. Foto de 2009, com o Rev. Cláudio Marra 
posando em frente da mesma (por sinal muito parecido com o pai)


Claudino Marra e d. Antônia em comemorando 
Bodas de Prata (Sorocaba, SP - 1959)



Claudino Marra conduz ao altar a filha Claudineide. Ela
descreveu a história da família e o esposo Wilson publicou
(foto de 15-05-1965 - Igreja Presbiteriana Filadélfia de Sorocaba)



Noivado da filha Claudionir com o jovem Nicodemo Lázaro Boldori. Ele
viria a ser pastor da I.P. Independente do Brasil. Indicado pela seta
o Rev. Ludgero Machado Moraes, um dos pastores que visitavam o campo 
missionário de Guanhães.



Esta foto foi dedicada por d. Antônia Bueno Marra
a seus familiares em comemoração aos 50 anos 
de sua conversão ocorrida em 20-01-1933


Dona . Antônia com as filhas Claudionor, Claudionir e 
Claudineide em Mairinque, SP (agosto de 1986)


Dona Antonia com filhos, genro, netos e bisneto
(Mairinque, SP 1986)


d. Antonia pregando no Dia da Bíblia na Igreja
Assembléia de Deus em Astorga, PR/ 12/12/90



Comemorando o centenário de Claudino Marra
os filhos, netos e bisnetos se reuniram para agradecer 
pela vida dos pais em Araçoiaba da Serra, SP.
A filha Claudionir, já muito enferma não pôde participar 
mas na montagem ela aparece na foto de 2006.



OS PASTORES DA FAMÍLIA


Rev. Cláudio Antonio Batista Marra
(filho)


Rev. Eliézer Batista Marra
(filho)




Rev. Nicodemo Lázaro Boldori
(genro)



Marra Júnior (filho) é tradutor de inglês português
de obras evangélicas, em especial as calvinistas. 





ACERVO DOCUMENTAL


Bíblia do Vô Sebastião, editada em Nova
Iorque em 1902


 Anotação feita pelo vô Sebastião numa folha interna de
 sua bíblia–fez a profissão de fé em Sertãozinho, SP em 21-05-1933


 
Data de nascimentos dos filhos anotadas
pelo vô Sebastião numa folha interna da Bíblia


  Recibos: dízimo em Borborema e de oferta feita pelo 
vô Sebastião pró construção do templo da Igreja 
Presbiteriana de Astorga Pr. (1935)


Cópia da Certidão de Casamento
de Claudino Batista Marra e 
Antonia Bueno de Freitas


Diploma da APEC concedido à d. Antonia
Bueno Marra. Ela tinha muita prática, mas
 fez questão de se atualizar


Vista aérea de Guanhães, MG, sede do trabalho
onde Claudino Marra e d. Antonia dedicaram
seis anos de vida missionária. (foto internet)


SOBRE OS AUTORES

Claudineide Marra Ribeiro nasceu em Andradina, região noroeste do Estado de São Paulo aos 13 de outubro de 1946. Foi com a família para Guanhães com apenas um ano de idade e veio para Sorocaba com seis. Muito atenta a tudo, guardou na memória aquilo que conseguiu observar. Posteriormente, em conversas com os pais, irmãos mais velhos e parentes, organizou as idéias e passou-as para o papel. E foi a partir dessas anotações que foi possível descrever esta bela história de vida de um casal que acima de tudo amou profundamente a Deus e procurou pregar a Sua mensagem.
Claudineide começou a trabalhar na indústria têxtil ainda adolescente em Sorocaba, onde fez os estudos básicos, os quais foram concluídos depois de seu casamento. Concluiu também os estudos médio e superior  tornando-se professora de Língua e Literatura Portuguesa. Aposentou-se após ter trabalhado no Ensino de 1º e 2º graus  vinte e nove anos em escolas do Governo do Estado de São Paulo.
Seguindo o exemplo dos pais, sempre esteve envolvida com as atividades relativas ao ensino nas Igrejas Presbiterianas em que foi membro: Filadélfia de Sorocaba, Alumínio, Mairinque e Araçoiaba da Serra. Sempre presente também nas atividades realizadas pelas mulheres presbiterianas. Em julho/2011 participou como voluntária de uma ação missionária em Poço Verde, sertão de Sergipe.-Nossa Missão - site:  www.nossamissao.com.br  Atualmente participa com o esposo como membros na Igreja Presbiteriana Rocha Eterna de Sorocaba.
Wilson do Carmo Ribeiro é natural de Campos Novos Paulista, interior do estado de São Paulo. Como a família morava na área rural só concluira o antigo curso primário. Fez supletivo de primeiro grau, colegial e o curso superior de Pedagogia, atuando na área educacional durante quinze anos paralelamente às suas atividades na Cia.Brasileira de Alumínio onde laborou durante 31 anos. Teve participação política em Alumínio e em Mairinque como Vereador e é presbítero na IPB desde 1976.
Neste mesmo blog, criado em outubro de 2010 publicou entre outros trabalhos:
- Primórdios do Presbiterianismo em Sorocaba;
- O Presbiterianismo em Mairinque;
- História da Igreja Presbiteriana de Araçoiaba da Serra;
- História da Igreja Presbiteriana Rocha Eterna de Sorocaba
- Cidade de Alumínio - Fatos e Fotos de Sua História.
A Deus toda a Glória.
Wilson: E-mail: prebwilson@hotmail.com



[1] Também consumiam animais caçados nas matas.
[2] Eu não era ninguém para ir à venda
[3] A única semelhança são os anjos dali que sempre acamparam ao lado da nossa solitária casa aqui.

[4] O nome da minha amiga era Dna. Rita.

Claudineide e Wilson. No recorte,
ela aos sete anos


2 comentários:

  1. Quanta emoção.....doces lembranças ,bendita fé de meus pais.Claudineide

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  2. E o que ocorreu com Nali?
    Muito bonita essas versões e bem redigidas.
    Parabéns!

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